Sobre Carmem Galbes

Olá, Coexpat!

Se isso fosse uma cena, começaria esse texto com notas musicais suaves, de alegria, evoluindo para algum drama entre um acorde e outro...

Era verão de 2006. Arrumávamos as malas para uma viagem pela França, Espanha e Itália.

O toque do interfone interrompeu a organização da necessaire. Era o ponteiro anunciando um telegrama. Telegramas sempre traziam frio na barriga...

Meu então marido estava sendo chamado para assumir uma vaga em uma empresa, depois de dois anos que o concurso tinha acontecido.

Festa, comemoração, brinde! Mal sabia eu como minha vida iria mudar...

De volta da viagem, lá estávamos nós experimentando um casamento na ponte aérea. Ele no Rio de Janeiro. Eu em São Paulo.

Ficamos por um ano nesse decola e aterrissa. Até que ele se estabeleceu no Rio.

Então lá fui eu...

É aí que começa meu relacionamento sério com a mobilidade de profissionais e seu impacto no empoderamento das mulheres.

Nessa minha história de idas e vindas, o trajeto entre São Paulo e Rio foi o mais curto, o mais rápido, o mais fácil de todos para o caminhão de mudanças, mas para mim foi o mais sofrido, o mais dolorido, da qual carrego feridas até hoje.

Nessa primeira mudança provocada pela carreira de outra pessoa, mais do que um choque cultural, foi o choque de identidade que me pegou. Amo o Rio, sua beleza, sua leveza, mas nem de longe estava preparada para deixar pra trás o que tinha construído com minhas próprias mãos, do jeito que havia planejado, onde eu havia desejado, para  começar tudo do zero e na mais absoluta solidão, apesar de casada, de ter família grande e de ter bons amigos.

Ninguém me falou para me preparar. Ninguém  me falou para ter um plano meu, só meu. Ninguém me falou para considerar a possibilidade de seguir na ponte aérea. Ninguém me falou para não deixar a minha carreira...simplesmente porque não havia pessoas que normalmente falassem sobre isso, sobre a vida de quem deixa seus próprios planos em segundo plano para apoiar os planos de outra pessoa em um outro lugar.

Comecei a me sentir mais à vontade com essa história de ter deixado muita coisa de lado para seguir ao lado de alguém com uns seis meses de Rio, quando meu então marido foi designado para acompanhar um projeto nos Estados Unidos.

Feliz com a possibilidade de deixar um trabalho que azedava os meus dias e amargurava o meu coração, comprei a ideia na hora.

Mas dessa vez esbocei um plano.

Sabia que iria ficar sem trabalho em outro país e queria ter algo para apresentar nas entrevistas de emprego quando voltasse para o Brasil. Então decidi escrever sobre a minha experiência como “esposa” de um profissional transferido. Criei um blog, o Expatriadas.

Ao escrever, percebi a carência de informações sobre o tema em língua portuguesa. Fiz do blog, então, mais que um diário pessoal. Como jornalista, passei a pesquisar, investigar, entrevistar profissionais sobre o tema.

A partir daí, cheguei a conceitos como invisibilidade social, Síndrome de Ulisses, violência patrimonial contra as mulheres, temas que me mostraram que a minha dor era a de muitas mulheres e que essa mesma dor poderia causar vários problemas.

Com a reflexão sobre essa realidade e a troca de informações e de impressões com mulheres nas mesmas condições, eu descobri que o papel de “quem acompanha” não poderia ser resumido a um estado civil. Foi assim que nasceu a definição de coexpatriação. Mais do que esposa expatriada, a mulher que aceita um convite para apoiar a carreira d@ parceir@ em um outro lugar é um agente fundamental no processo de adaptação cultural e de identidade da família estrangeira e – também – do profissional transferido.

Isso para mim virou uma bandeira, uma causa que busca valorizar um público tão preparado, mas que acaba entregando pouco para a sociedade exatamente porque não é visto, ou não vê-lo seria uma estratégia econômica interessante, visto que o trabalho da coexpatriada – tão fundamental, como pesquisas já apontaram -  não é financeiramente remunerado?

Fato é que após 12 anos vivendo e trabalhando em torno desse tema, meu casamento acabou. Só não me perdi porque estava preparada e tinha uma rede de apoio estruturada o suficiente para não ter o triste e – em alguns casos – trágico destino de algumas mulheres que passaram pela mesma experiência e desfecho.

Amargura? Poderia até ser, se a experiência de viver cada hora em um lugar não tivesse sido incrível, repleta de desafios que me levaram para um caminho de autoconhecimento, bem aos moldes dessas caminhadas que fazemos pelo mundo em busca de respostas. A cada nova casa, a cada nova vizinhança, cada novo sotaque, cada novo sabor, a cada pessoa que ia conhecendo fui despertando uma Carmem que, provavelmente, seguiria dormindo se não tivesse se permitido cruzar fronteiras físicas e emocionais.

De onde eu sou? Sei que nasci em São Paulo, cresci em Campinas, voltei pra capital para construir minha carreira, me reinventei no jornalismo no Rio, engravidei em Houston- Estados Unidos e dei à luz já de volta ao Rio. Fui do Recife por  5 anos. Voltei a ser do Rio - pela terceira vez - e hoje estou de volta a Campinas, onde tudo começou e por onde eu fico até quando Deus quiser.

Profissão? Uma que eu construi e que posso levar na bagagem para onde quer que eu vá! Hoje chamam isso de nômade digital! Uia! Eu pesquiso, escrevo, troco informações sobre esse mundão da mobilidade de profissionais e suas famílias.

Nesse momento eu posso quase adivinhar o motivo de você ter vindo parar aqui...
Não consegue ser feliz em outro lugar, apesar da mudança ter trazido uma melhora no estilo de vida da família, nas expectativas de formação cultural dos filhos, nas finanças...e você se sente culpada, mal agradecida, sem forças para fazer algo por você mesma que não tenha absolutamente nada a ver com a expatriação...E você se sente triste porque deixou a carreira de lado, a família longe, porque perdeu a rede de apoio, a independência financeira, porque não tem intimidade com o idioma, com a cultura...enfim...é tanta coisa estranha, errada, ruim...eu sei!!
Se esse é o seu caso, sei exatamente o que você está passando porque também trilhei essa jornada. A boa notícia é que, com apoio sincero, a gente consegue se reencontrar e numa versão melhorada!

Espero que o Expatriadas te auxilie nesse processo, que seja uma fonte de informação, de troca e de um abraço apertado quando necessário.

Beijos e que você tenha uma jornada Leve!



Carmem Galbes

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