28 de setembro de 2009

Uma expatriada em Honduras.

Olá, X!
Golpe de estado. Presidente deposto. Toque de recolher. Confrontos nas ruas. Suspensão de garantias constitucionais.
Hoje a conversa é com uma brasileira que está tendo que conviver com a confusão que se instalou em Honduras.
Elisa Vieira, casada com um hondurenho, é presidente da Associação dos Brasileiros Residentes em Honduras.
Em seguida à rápida conversa, Elisa pede que seja divulgado um relato dela sobre os acontecimentos em Honduras.

X - Os brasileiros em Honduras receberam alguma orientação especial do consulado?
EV - Não, não recebemos nenhuma orientação.

X - A sua família tomou alguma providência em especial?
EV - Não, até agora não houve nenhuma implicação grave para os cidadãos hondurenhos ou residentes de outros países. É só não andar no meio da bagunça que não tem problema.

X - Qual tem sido a sensação entre os brasileiros? Há relatos de desejo de voltar para o Brasil?
EV - Grande parte dos brasileiros que moram aqui já tem amor ao país. Muitos têm filhos aqui, negócios, muitas brasileiras são casadas com hondurenhos. Só voltaríamos ao Brasil se a coisa ficasse muito feia.

X - Vocês têm conseguido sair de casa para atividades corriqueiras, como ir ao mercado, ao trabalho, à escola, ao médico etc? Há falta de produtos?
EV - Por 2 dias não pudemos sair as ruas e tudo estava fechado. Agora as pessoas estão trabalhando normalmente. Funcionam normalmente supermercados, escolas... mas apenas das 6 da manhã às 8 da noite. Depois das 8 da noite está tendo toque de recolher.

X- Na sua opinião, de alguma forma o apoio do governo Lula ao presidente deposto Manuel Zelaya pode prejudicar a futura relação cotidiana entre brasileiros e hondurenhos?
EV - A vida cotidiana da gente, não. Os hondurenhos sempre gostaram muito dos brasileiros e já temos uma vida feita aqui neste país que nos recebeu de braços abertos. Mas a situação política e comercial entre os dois países pode, sim, ser muito afetada.
A carta de Elisa Vieira:
Estimados amigos compatriotas, jornalistas, políticos, família e todos aqueles que se preocupam e querem saber a verdade sobre a situação em Honduras,
Recebi um e-mail hoje que me deixou indignada. Foi uma entrevista feita por uma jornalista brasileira a um senhor chamado Ramon Navarro. Neste e-mail, o tal Ramon falava que aqui em Honduras há “campos de concentração”, que o exército está “matando companheiros que fazem passeata” e que há “torturas, desaparecidos e mortos”. Eu moro em Tegucigalpa, Honduras, faz 6 anos e posso afirmar que não está acontecendo nada disso. Aqui não existem “campos de concentração”. Não há torturas, nem desaparecidos nem mortos pela repressão. Sim, está tendo toque de recolher e a polícia joga bombas de gás lacrimogêneo para controlar os manifestantes que estejam fazendo muita bagunça. Mas sabem por quê? Porque alguns manifestantes da “resistência” (como são chamados aqui os que defendem o Manuel Zelaya) começam a incendiar pneus, jogar pedras nas casas, atentar contra a vida das pessoas. O exército e a polícia têm sido muito tolerantes com tudo o que eles têm feito, pra não serem mal vistos pelos organismos internacionais e pelos direitos humanos. Os manifestantes da “resistência” têm saído às ruas de Tegucigalpa em plena luz do dia, pixando muros, quebrando vidros de lojas, incendiando restaurantes, saqueando supermercados, lojas e bancos! E a polícia não estava fazendo nada! Não sei se é por falta de policiais suficientes para controlar toda essa bagunça ou simplesmente para não falar que há repressão aqui. Algumas poucas vezes, em que os militares ou policiais estavam presentes, jogaram bombas de gás ou água para poder controlar a atitude violenta dos manifestantes. E claro, agora com o Manuel Zelaya instalado na Embaixada do Brasil, a situação se complicou muito mais porque os manifestantes da resistência ficaram mais violentos, queriam tirar o ex-presidente Zelaya da Embaixada e têm feito anarquia em vários lugares do país. Um dos tais “campos de concentração” ao que este Ramon deve estar se referindo é a um campo de Baseball que está perto da minha casa. É verdade que levaram várias pessoas detidas aí, pessoas que estavam fazendo alvoroço nas ruas. Mas não tinha nada de tortura nem nada. Da minha casa dá pra ver tudo o que acontece aí e os detidos estavam sentadinhos na grama, só esperando. Depois de algumas horas, a polícia liberou todo mundo, não houve nenhum fichamento na polícia nem golpes nem nada.
Agora, para que saibam a situação do povo hondurenho: o povo hondurenho está dividido. Há muitas pessoas que estão a favor do Manuel Zelaya, mas há muitos que estão contra (provavelmente a maioria). E nós, brasileiros residentes em Honduras, estamos muito tristes e decepcionados com a postura do governo brasileiro de emprestar a Embaixada do Brasil pra ser usada como Quartel General pelo ex-presidente Zelaya. Isto é uma crise política interna, que tem que ser resolvida pelos hondurenhos. O governo brasileiro está violando o princípio da não intervenção entre os países. Manuel Zelaya colocou mais de 150 pessoas dentro da Embaixada do Brasil, ativistas seguidores dele, pessoas armadas, etc. E não respeitava os funcionários brasileiros da Embaixada, fazia o que queria lá, como se fosse a casa dele. E de lá estava incitando seus seguidores a lutar nas ruas, fazer manifestações pra sua volta ao poder. E ele é muito contraditório porque tem hora que fala uma coisa e depois fala outra. No começo chegou com um discurso falando que vinha em missão de paz, que não queria voltar ao poder, que só queria estar em seu país. Algumas horas mais tarde estava gritando: “Restituição ou morte!”
E nosso querido presidente Lula (eu votei nele nas 2 eleições) fala que é necessário restituir o Zelaya na presidência para preservar a democracia. Ora, vocês sabem o que levou a retirada do Manuel Zelaya do poder? Mel Zelaya violou a Constituição Hondurenha, desrespeitou o Congresso Nacional, o Tribunal Supremo Eleitoral, o Exército Nacional. Ele estava tentando sabotar as eleições para continuar no poder como um ditador socialista, financiado e apoiado pelo Hugo Chávez, da Venezuela. Ele invadiu a sede das Forças Armadas para tirar de lá as urnas para uma suposta “Consulta Popular” que tinha sido considerada ilegal, já que esta estava diretamente relacionada com sua tentativa de permanecer no poder e dissolver o Congresso Nacional. Isto é democracia? Querer passar por cima de tudo e de todos pra continuar no poder e fazer tudo o que lhe convém, sem respeitar as leis e os demais poderes do Estado?
Muitas pessoas que o apóiam são idealistas, pessoas que acreditam no socialismo, na igualdade social, seguidores do Che Guevara, Gandhi, Martin Luther King. Eu também admiro todos eles que lutaram pelo povo e por melhores condições de vida a todos e contra o racismo. E gostaria que pudéssemos viver em um mundo melhor. Mas é idealista a pessoa que nasceu de família fazendeira rica, que estudou só o básico porque não gostava dos estudos, que nunca teve que trabalhar duro na vida, que quando chegou ao poder gastou mais de 10 milhões de lempiras (equivalente a 1 milhão de reais) em gastos pessoais, luxo, passeios das filhas no avião do governo à Cuba e a outros lugares, compra de motos e cavalos caros, tudo com o dinheiro do povo? Que colocou várias pessoas da sua família em cargos públicos onde roubaram milhões de lempiras? Que desviou milhões de lempiras dos cofres públicos para sua campanha de reeleição sem se importar com os hospitais que não tem remédios, a desnutrição no país, a falta de educação de qualidade? Alguém que só quer poder e dinheiro e que está usando o povo para conseguir isso?
Outro discurso dele e dos seus seguidores é que só a classe rica está contra ele. Mentira! Eu viajei pelo país faz pouco tempo e tive a oportunidade de conversar com pescadores, taxistas, faxineiras, camponeses. A grande maioria não está a favor dele! Ninguém quer viver numa ditadura “socialista” como a Venezuela do Hugo Chávez!
Queremos paz neste país que nos recebeu de braços abertos! E a intromissão do governo brasileiro só está causando mais problemas, mais confusão! Até quando o governo brasileiro pretende manter Mel Zelaya na Embaixada do Brasil? Até quando vai continuar a se intrometer sem saber a realidade deste país e do seu ex-governante?
Por favor, conheçam e divulguem a realidade desta pequena-grande nação chama Honduras! E se alguém puder fazer alguma coisa para nos ajudar, faça!
Elisa Rezende Vieira
Presidente da Associação de Brasileiros Residentes em Honduras (ABRAREH)

2 comentários:

  1. Infelizmente, li esse texto muito tarde, ou teria divulgado no meu próprio blog. Excelente, imparcial e esclarecedor.

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  2. Olá, Bianca!
    Obrigada pela visita. Bjs.
    Carmem.

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