17 de junho de 2009

Cinco peguntas e uma boa surpresa. Espanha.

Olá, X!
A Bianca Rocha é dessas expatriadas que toda X! precisa um dia conversar. Não é só porque ela é do tipo que soma, é que mesmo sempre colocando tudo em perspectiva, não deixa de revelar como a experiência em outro país pode ser absurdamente deliciosa, apesar dos desafios.
Com quase 6 anos de bagagem “expatriática”, a artista plástica é do time das que concordam em deixar o Brasil para dar aquela força na carreira do marido, mas ela não deixaria de construir seu caminho em Madrid...
Encontrei a Bianca depois de ficar horas de olho bem aberto no Buraco da Fechadura, blog em que ela conta como tem sido essa vida no “estrangeiro”.
A gente agradece e já abre espaço, porque a Bianca tem muito o que falar: “há algo importante que aprendi com as mudanças e é não comparar com o passado. Quando você compara, normalmente perde. É fundamental buscar o que há de melhor em cada lugar e aproveitar a oportunidade de crescer. Não acho que a gente precise perder o senso crítico, os problemas existem e aprendemos com eles. Mas problemas se resolvem e não se remoem. O risco de idealizar um passado e esperar por um futuro que não existe é enorme. E o pior é perder um presente interessante e divertido.”

Cinco Perguntas:
X
- Como foi o processo até você realmente se sentir em casa em outro país, ou isso nunca aconteceu?
BR - Depende do que se entenda por se sentir em casa. Venho de uma família que já mudava com frequência e segui o mesmo caminho. Portanto, há muitos anos não tenho grandes dificuldades em mudar. Sempre brinco que levei uns 15 minutos para me adaptar a Madri. Onde durmo é minha casa.
Agora, se a pergunta diz respeito a não se sentir estrangeira, a resposta é outra, por exemplo, a cada vez que abro a boca é evidente que não sou daqui. Entretanto, depois de algum tempo, não lembro exatamente quanto, talvez depois do primeiro ano, isso passou a ser secundário. Ou seja, se não posso mudar o fato de ser estrangeira, não uso mais como parâmetro para me sentir em casa. O curioso é que quando volto ao Brasil, também me sinto um pouco estrangeira.

X - O que é ou foi mais difícil durante a sua expatriação?
BR - O processo de documentação, porque além de extremamente burocrático e desgastante, é como se você tivesse que provar o tempo inteiro quem você é, e isso mexe com sua identidade. Aqui descobri que não importa o motivo pelo qual vim, sou uma “imigrante” e esse conceito me pesou.
Outra dificuldade grande é a distância da família. Logo que mudei, todos estavam saudáveis, portanto, minha única preocupação era saudade. Mas nossos pais não ficam mais jovens e, às vezes, a dúvida entre esperar uma resposta e embarcar correndo em um avião para o Brasil é angustiante.

X - O que faria diferente?
BR - Negociaria melhor minha saída do Brasil, no que diz respeito à documentação. Porque saí apenas com o visto de residência e não de trabalho, o que é bastante limitador. No mínimo, me informaria melhor, fui aprendendo no caminho e me decepcionei bastante.

X - Toparia ser expatriada de novo?
BR - Sim, no mesmo minuto. E “de novo” é muito mais fácil, porque ainda que as respostas mudem, você sabe as perguntas, os caminhos são mais rápidos.
No Brasil, minha primeira mudança significativa de cidade, ou seja, quando tinha idade para entender o que isso significava, foi duríssima! As seguintes foram radicalmente mais fáceis. Como expatriada, antes de morar na Espanha, moramos nos EUA e foi uma experiência difícil, porque me preparei para problemas que não tive e tive outros que não estava preparada. Mesmo assim, hoje chegaria com uma postura completamente diferente e também aceitaria voltar. A gente aprende a lidar com a situação.
Acho a experiência impagável e imperdível, amplia sua visão do mundo e te ajuda a por tudo em perspectiva. Você pode ler ou se informar a respeito, mas vivenciar outras culturas te ensina muito mais, você não só imagina o que é, você sabe. É possível que uma pessoa tenha uma grande experiência e conhecimento sem mudar de país, mas requer um esforço maior. Um expatriado é exposto todos os dias.
Aprendemos a ter uma atitude mais aberta, aceitamos melhor outras possibilidades e visões sem que isso nos agrida ou assuste. Perdemos ou diminuímos bastante o medo de tentar coisas novas, arriscar, mudar. A resistência traz sofrimento.
E no lado prático, profissionalmente é importantíssimo, te dá um perfil internacional, o que hoje em dia é um atributo valorizado.

X - Quais expectativas se concretizaram e quais viraram pó depois da mudança?
BR - Não alimentei grandes expectativas, preferi esperar para ver. Mesmo assim, alguma coisa a gente sempre imagina.
No caso de Madri, a expectativa que se concretizou é o fato da cidade ser viva, animada, de verdade. Existe uma boa segurança pública e um nível de desigualdade social relativamente pequeno, o que permite caminhar nas ruas com tranquilidade.
O que virou pó foi acreditar que, por estar na Europa, as pessoas seriam mais cultas, de vanguarda. E na prática, em média, são muito conservadoras e provincianas. A aceitação de algo novo é sempre complicada. Mesmo que seja uma opção melhor, o diferente ao “de toda la vida” assusta e é rejeitado.

A boa surpresa dessa experiência foi:
Descobrir que posso mudar em essência e não apenas de lugar.
Descobrir que seus amigos se tornam sua família, eles não a substituem, mas adicionam, se convertem em parte dela. As pessoas te ajudam felizes em favores gigantes, porque conhecem a falta real de ter alguém em quem contar.
Aprender e absorver outra cultura não necessariamente elimina a sua própria. Não é necessário negar sua origem para se adaptar em outro país. Em contrapartida, não é preciso denegrir outra cultura para se defender. A chave é o respeito.

3 comentários:

  1. Que entrevista interessante!

    é bom ver seu blog de volta à programação normal :)

    Beijo!

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  2. Gostei muito da entrevista.As respostas são bem inteligentes e verdadeiras.
    Morei fora algum tempo e concordo que nossa família são os amigos que escolhemos.
    Ceissa

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  3. Interessantissimo o topico ai,viu?Vivendo fora do pais em que nascemos e vivemos por decadas nao e nada facil,nao,mas a gente tambem cresce vivendo fora e abraca assim a nova realidade.Aconteceu comigo.

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