23 de março de 2009

Expatriação do mal.

Olá, X!
Palavra para mim é algo que vai além do conteúdo. Tem forma, aparência, cor, cheiro, sabor. O radical expatri, por exemplo, carrega uma aura positiva. Tem um som que remete a desafio, aventura, mudança, sucesso. Essa combinação de letrinhas, não importa a desinência - se expatriação, expatriado, expatriadas, expatriar - vem sempre em cores vibrantes, tem cheiro de chuva batendo na terra seca.
Quando tocamos no assunto, falamos - geralmente - em pacote de incentivos, programa de adaptação, plano de carreira...
Mas existe um aspecto bem sombrio do tema. Não falo do lado B da expatriação, sobre os efeitos colaterais dessa vivência que mexe para sempre com ideias e sentimentos.
Falo da expatriação para o mal.
A rede de TV MSNBC exibiu nesse domingo o documentário “Undercover: Sex Slaves in America”, algo como o submundo da escravidão sexual nos Estados Unidos. Veja aqui e aqui.
O material mostra como a oferta de emprego e de estudo no exterior pode esconder um poderoso e bilionário esquema de tráfico de pessoas e de exploração da prostituição.
Mulheres que conseguiram fugir, hoje testemunhas em investigações policiais e feitas pelo congresso americano, contam como caíram nessa.
A jornada começa com oferta de emprego que exige pouca qualificação ou de programa de estudos em universidade atrelado a um trabalho para pagar os custos. Já em solo americano, com pouco domínio do idioma e com fé cega, as “selecionadas” ouvem falar em mudança de planos e seguem todas as orientações que recebem.
Em uma cidade desconhecida e com o passaporte em poder da quadrilha, as vítimas são informadas da “dívida” que têm com os “empregadores” e como vão pagá-la. É aí que a ficha cai!
Sem dinheiro, sem contato, trancadas em locais como casas de massagem ou cantinas mexicanas - caso de Houston, sob a vigilância de câmeras, e envolvidas em uma atmosfera de violência física e emocional - com ameaças à família que ficou, a experiência de expatriação dessas mulheres vai se resumir à prostituição forçada.
No relato de uma universitária ucraniana, que acreditava ter embarcado para estudos na Virgínia, a indignação por não ter desconfiado de nada. Ela disse que ouvia falar desse tipo de esquema , mas que não imaginava que poderia ser vítima dele.
É realmente difícil entender. Como pode?! Penso que o sonho e a expectativa pintam de rosa o perigo.
Os defensores dos acusados de tráfico argumentam que as mulheres escolhem estar nessa situação. É mesmo? Resgato um alerta da ucraniana: “sorriso no rosto não significa que a pessoa faz o que faz por livre e espontânea vontade.”
Aproveitando esse mês em que se costuma fazer um balanço das conquistas das mulheres: vejo que ainda estamos batendo pedra para fazer fogo. Que mundo é esse?
Imagem: SXC

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