18 de março de 2009

Entre o perigo e a paranóia.

Olá, Coexpat!

Não sei se você já teve a honra de passar por uma dessas simulações de incêndio. Para mim esse é um daqueles troços que pertencem à lista das coisas mais estranhas do planeta. Todo mundo fica sabendo quando o alarme vai soar. A função é sair sem pânico. Fácil! Já que a gente sabe que tudo não passa de treinamento. Elevador? Nem pensar. E a cada degrau a mesma fala de sempre: “preciso voltar aos exercícios...”
Sei de gente que odeia essas simulações porque - não raro - acontecem em meio a um mundaréu de trabalho. Tem também gente que ignora sem culpa o chamado e há aqueles que não esquentam a cabeça e aproveitam para resolver alguma coisa na rua.
Lembro que no começo da minha experiência "expatriática" achava estranho esse sistema de endereço comercial dentro de casa: detectores de fumaça, sprinklers e alarmes como parte da decoração. Mas prestando atenção você vê que o cuidado não é exagero. O ambiente é altamente inflamável. É que imóvel nos States costuma ser de papelão - com o perdão da minha ignorância no tema.
O problema é quando tal sistema entra em ação e não há nenhum treinamento agendado.
Pois é, aconteceu hoje onde eu moro. Cinco da manhã! Confesso que demorou um pouco para entender se era despertador, celular ou buzina. A primeira reação foi interessantíssima. Custou a acreditar que poderia ser uma emergência. Só pensava em desligar aquela maldita sirene...
O zum-zum-zum no corredor foi o que funcionou como aquele aviso do anjinho, sabe? “Olha...pode ser fogo”.
Alguns “serás?” aqui e ali depois, o estalo: nossa, é de verdade, “simulação” de verdade. Corre!
Deu tempo de trocar de roupa, pegar carteira e chave do carro.
Lá embaixo, depois do susto e de não ver fumaça, diversão de graça. Todos, no mínimo, com cara inchada e bafão. Tinha também marmanjo com pijama de bichinho, além de gente enrolada em cobertor, morador ainda na porta do apartamento perguntando o que estava acontecendo e gente com mala pronta, como se fosse passar um ano fora. E as histórias? Um disse que na tentativa de desligar o alarme disparou outros. O vizinho da frente contou que a primeira reação foi ligar o exaustor. Ã?!?!
Entre ti-ti-ti na garagem e no hall de entrada, os bombeiros vasculhavam a área. O alarme continuava ensurdecedor.
Depois de 1 hora mais ou menos, o diagnóstico: algo aconteceu no segundo andar... nada de fogo. Nada de grave.
Putz! Bem melhor assim.
Passada a agressão de pular da cama aos “berros” da dona sirene, fiquei pensando: “ok, foi só um susto, mas será que estou mesmo preparada para enfrentar emergências?” Não, claro que não! A gente se prepara só para as coisas boas, para o que a gente planeja e quer, não fica pensando no que pode dar errado, tem guru que diz até que dá azar!
Engraçado é que mesmo assim passamos a vida elaborando mecanismos de prevenção, previsão e alerta. Apesar de todo esforço para driblar o que pode dar errado, hoje percebi como somos resistentes em acreditar no perigo.
Tudo bem que, se tomar por base o acontecido, tenho reforçada a ideia de que esses mecanismos têm mais chances de falhar do que de alertar. Mas pensar assim é, no mínimo, perigoso.
O sistema de previsão dos estragos que o furacão Ike, por exemplo, iria causar em Houston, setembro passado, ajudou a “estancar” o número de vítimas. Saber o tamanho do bicho não fez dele algo maior ou pior.
Por outro lado, levar ao pé da letra estatísticas de violência no trânsito e nas ruas tem feito muita gente refém das próprias suposições.
Acho que esse é o ponto. Saber separar o iminente do possível. Antecipar situações que podem causar estragos e enfrentá-las é maturidade. Supor que estamos o tempo todo correndo risco e conduzir nosso dia a dia a partir dessa premissa é pedir para pirar.
Como selecionar, então? Não sei.
Essa foi minha primeira “simulação” de verdade! Até que rendeu! Rendeu coisa pra falar, coisa pra pensar e a memória do som estridente da sirene. Ô coisa chata!


Carmem Galbes
Imagem: SXC

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