3 de setembro de 2008

Leve Entrevista. Estranho Idioma.

Olá, Coexpat!
O professor Fernando Megale avalia a experiência da expatriação sob o ponto de vista do psicólogo. Ele aborda aspectos como preconceito e expectativas, além de pontuar algumas características do processo de formação de um cidadão do mundo. Aproveite!

Leve: Com a globalização, a expatriação é uma realidade para um número cada vez maior de profissionais. Mas a experiência que promete ser rica em termos pessoal, profissional e financeiro pode não dar o resultado esperado. O Estudo Mobility Brasil  indica que de cada 4 expatriações  uma fracassa. A principal causa disso, segundo a pesquisa, é a falta de adaptação da família aos novos costumes e ao novo modelo de vida. Em um mundo onde a novidade é tão valorizada, por quê resistimos tanto às mudanças?
FM: Penso que a questão tem dois lados: um refere-se aquele que é o expatriado em sua posição de contato com cultura e costumes diferentes e estranhos. A globalização tenta dar uma idéia de que tudo e todos somos iguais, o que é falso. Então certamente nessas situações de encontro com o novo, a questão da diferença vai surgir.
Outro lado refere-se ao modo como o expatriado é recebido no país ou cidade, pois trata-se da entrada de um estranho no cotidiano, e as questões migratórias nunca são muito tranquilas.


Leve: De que forma o idioma estrangeiro interfere na elaboração da então condição de expatriado?
FM: Acho que é fundamental. A língua, além de ser o principal meio de nos comunicarmos, representa o marco de nossa identidade, o modo como nomeamos o mundo na origem. Em uma situação de expatriado, é lógico que a língua interfere em demasia nesta confusão de lugares, costumes e modos de agir no mundo.

X: Como expatriada, digo que o impacto da mudança é profundo. Ainda em "terra firme" é possível preparar-se para aproveitar a experiência de estrangeiro?
FM: Talvez a melhor preparação seja não imaginar que a solução da vida está no outro país, ou seja, acreditar numa espécie de solução mágica que se encontra no outro lugar. É uma forma de encarar a vida por lá de um modo mais realista, levando em consideração a certeza de que o expatriado está chegando em um lugar estranho, com tudo o que isso nos causa.

Leve: Com os olhos no futuro, qual o papel dos pais e da escola na formação de uma geração que tende a ter cada vez mais endereço não fixo?
FM: Podemos ampliar esta questão, pois há em cada um de nós algo de "endereço não fixo". Explico: a preparação passa por experiências nas quais as crianças tenham um real contato com coisas e costumes que são estranhos aos delas. A preparação passa por um questionamento de sua própria identidade para, em seguida, poder vislumbrar o diferente. Temas como preconceito, racismo, diferenças, estranhamentos, etc. são bons motores para tais discussões.


Fernando Megale é doutor em Psicologia. Atua nas área de Psicologia do Desenvolvimento Social e da Personalidade e coordena o curso de pós-graduação em Sócio-Psicologia da FESPSP.

Carmem Galbes

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