17 de setembro de 2008

Ike em detalhe.

Olá, Coexpat!
Um amigo pediu para eu dar mais detalhes sobre meu primeiro contato com um furacão bravo. Então tá.
A temporada de furacões no Texas começou em primeiro de Junho. Já passaram por aqui Arthur, Bertha, Cristobal, Dolly, Edouard, Fay, Gustav, Hanna, Ike. Isso mesmo...A...B...C...D...os nomes seguem o abecedário.
Como já disse, Edouard foi o meu primeiro furacão. Um contato que não passou de: “nossa, só isso?”
Depois de enfrentar congestionamento nos corredores de água e comida enlatada, depois de ver que furacão pode ser só uma garoa e de perceber que as pessoas estão meio cansadas de tanta ameaça, decidi que também não iria embarcar no que chamam aqui nos Estados Unidos de indústria do furacão.
Com o Ike seria assim, não fosse um detalhe: o estrago em Cuba e no Haiti, onde deixou pelo menos 75 mortos. Além disso tinham as fotos do satélite. Eu tenho medo daquela imagem cinza, daquele olho grande...
Aí começou.
Terça-feira: o governo do Texas manda os moradores do litoral deixarem suas casas.
Quarta: Os canais de tv suspendem a programação normal e dão espaço pleno ao fenômeno.
Quinta: Ike é o tema das aulas na universidade.
Eu realmente não acreditava que estava em risco. Eu e meu marido decidimos não deixar a cidade. Fomos ao mercado, como todo mundo. Água, pilha, vela. Já que enlatado só desce mesmo em furacão, o estoque feito antes do Edouard estava intacto.
Sexta: tentamos almoçar em algum lugar. Às três da tarde já estava tudo fechado.
Passamos o dia grudados na tv. O avanço da maré avisava que o Ike não deveria deixar a categoria 2 de uma escala que vai até 5 - nível mais violento do fenômeno...não foi isso que aconteceu...

Às sete da noite já víamos os repórteres chacoalhando em Galveston, litoral do Texas.
Decidimos dormir...Pensamos que dormindo, a história acabaria logo. 

Capaz! O balanço das janelas nos expulsou da cama. 
Como o conselho é ficar no cômodo mais central da casa, o que está protegido por mais paredes, montamos acampamento no banheiro da suíte, que não tem nem janela.
Seguimos as dicas de quem tem experiência no tema: levamos com a gente - além do kit sobrevivência: água/comida/lanterna, mochila com documentos e sapatos - caso os estilhaços de vidro se espalhassem pela casa. Animador, ?
E no banheiro ficamos por umas quatro horas.
Um amigo me perguntou se tive medo. Não sei dizer. Fiquei pensando se o vento levasse o teto. Sabe aquela imagem da vaca voando? Não que eu tenha vaca em casa, mas aquela cena do Twister é simbólica. Tudo pelos ares...
As rajadas é que assustaram. Por várias vezes o vento diminuiu, o barulho ficou longe. E, de repente, vinha um estrondo. Parecia trem fantasma.
Não me atrevi a tentar ver algo pela janela, acompanhei tudo pelo meu mp3 a pilha.

Dos estúdios de tv, apresentadores e repórteres, em rede com as rádios, tentavam traduzir imagens em palavras.
O conselho mais interessante foi de um meteorologista sênior que sugeria distrair a criançada, porque o som do vento não era nada agradável. Depois dessa, aí que não larguei o radinho.
Lá pelas cinco da manhã tudo acalmou. Calmo até demais. Nenhuma sirene. Ninguém falando. Nem pingo d’água. Já estávamos sem o básico. Torneira seca e geladeira desligada.
Andar pelos corredores totalmente escuros do condomínio logo após um 11 de setembro - mesmo que sete anos depois, mesmo que por outros motivos - não foi nada agradável.
Na rua, raízes para o alto, semáforos - os que resistiram - piscando.
Deu uma tristeza...profunda...
Água continua só engarrafada. 

Gasolina continua 50 centavos mais cara, fora a fila.
Ainda estamos sem tv a cabo. 
Internet conseguimos emprestada. 
Todos continuam suspeitos. Toque de recolher à noite, pelo menos até sábado. 
Escolas seguem fechadas. 
Comida enlatada? Vai seguir estocada. É que a tal temporada de furacões só termina em 30 de novembro.
Em tempo, o próximo furacão já está a caminho e já foi batizado: Josephine.

Foto de um leitor do jornal The Houston Chronicle.

Carmem Galbes

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